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Quebrando tabus sobre a perda gestacional

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Quebrando tabus sobre a perda gestacional

Quais as motivações dos abortos espontâneos? Será que quem passou por um tem mais chances de ter outro? Quando investigar e como lidar com o medo de acontecer novamente? Essas e outras perguntas sobre perda gestacional são respondidas aqui por estrelas-especialistas convidadas de Stellar

03/09/2022

Tão comum quanto pouco falada, a perda gestacional é um assunto cercado por tabus. De acordo com uma publicação na revista médica The Lancet, cerca de de 23 milhões de gestações – o que corresponde a 15% das gestações anuais em todo o mundo – resultam em abortos espontâneos (quando a gravidez é interrompida espontaneamente e o bebê tem idade gestacional menor que 20 semanas ou peso inferior a 500 gramas). Isso significa 44 perdas acontecendo a cada minuto. 

Quem já passou por isso sabe o nó na garganta, o vazio no peito e as dúvidas que pairam na cabeça: haveria algo a ser feito para evitar a perda? Quem não passou, geralmente não sabe sequer o que dizer àquela amiga, colega de trabalho ou parente. Por parte dos médicos, os cuidados e o apoio foram nomeados pelo mesmo estudo conduzido pela The Lancet como “inconsistentes e mal organizados”. Na prática, boa parte dos profissionais simplesmente orientam a retomar as tentativas de gravidez após alguns meses. 


Passei por uma perda de um bebê. Tenho mais chances de ter outra?

De fato, para a maioria das mulheres, o bebê irá se desenvolver bem nas próximas gestações. Passar por uma perda gestacional não significa que a mulher está mais propensa a perder novamente ou que terá mais dificuldade de engravidar. Já os abortos recorrentes são bem mais raros, afetando cerca de 2% das mulheres, segundo a mesma revisão da literatura científica citada acima. 

Vale dizer que a perda não é resultado de uma atitude impensada da mulher, como pegar peso, malhar ou subir escadas, por exemplo. E na maioria das vezes não haveria nada a ser feito para impedir o processo, que em grande parte se dá por alterações genéticas do próprio embrião. Isso ajuda a entender porque 80% das gestações interrompidas espontaneamente acontecem até a 12ª semana, como mostram os dados da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “É como se o organismo fizesse uma seleção natural já no início da gestação, liberando o feto justamente por identificar que ele não teria condições suficientes de continuar se desenvolvendo de maneira saudável”, explica a ginecologista e especialista em reprodução assistida Fernanda Polisseni, da Clínica Nidus, em Juiz de Fora (MG). 

As alterações cromossômicas no feto são, aliás, a principal causa do aumento das perdas gestacionais em mulheres que estão próximas aos 40 anos, que sofrem uma queda na qualidade e quantidade de óvulos. De acordo com a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), estima-se que em gestantes de até 35 anos, o risco de sofrer um aborto espontâneo é de 15%; entre 35 e 39 anos, aumenta para 25%; entre 40 e 44 anos para 50%; e após os 45 anos pode chegar a 90%.

Quando investigar?

A perda gestacional é difícil não apenas para quem passa por ela ou para a família. Até mesmo na medicina não existe uma unanimidade sobre os protocolos de investigação ou exames solicitados. Até pouco tempo atrás, era comum ouvir os médicos dizerem que a investigação deveria acontecer apenas após três perdas. No entanto, com a última atualização feita por entidades como a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, definiu-se que após duas perdas o aborto espontâneo já pode ser classificado como de repetição e deve ser investigado. 


E vamos combinar que ninguém merece ter que passar três perdas ou mais para iniciar a investigação. Vale dizer também que em grande parte dos casos, mesmo após realizar diversos exames, não será possível encontrar uma resposta para o fato. “Pode ser que a gente investigue a fundo e mesmo assim não encontre nada. Mas, ao menos, temos a tranquilidade de saber que tudo foi investigado. Infelizmente, em 50% dos casos não achamos uma causa”, diz a ginecologista. 


Principais causas

Tirando as alterações cromossômicas, os principais fatores de risco para as perdas são:

• Fatores hormonais
As questões mais comuns são as alterações da tireoide, como o hipotireoidismo, que deve ser tratado com medicamentos para que a mulher possa engravidar novamente. 

• Fatores hematológicos
Aqui entram as trombofilias,  que são a tendência à formação dos coágulos. As que estão relacionadas aos abortos têm caráter autoimune, ou seja: são imunológicos. Nesses casos, são investigados alguns autoanticorpos para ver se há alterações que se relacionem com a coagulação. Existem também as trombofilias hereditárias também, mas tanto o Colégio Americano de Ginecologia Obstetrícia quanto a Sociedade Europeia de Reprodução Humana definiram que esse tipo de trombofilia não tem relação com os abortos de repetição. A investigação em casos de trombofilias hereditárias só é recomendada quando um parente de primeiro grau que teve alguma doença tromboembólica. 

• Alterações anatômicas do útero
Septos, miomas e pólipos, por exemplo. Vale dizer que útero bicorno, didelfo ou invertido não têm relação com infertilidade ou aborto de repetição. Já o útero septado pode levar a abortos. Miomas e pólipos que crescem dentro do útero também devem ser retirados, já que têm relação com os abortamentos espontâneos.


• Fragmentação de DNA no sêmen
Causado pelo estresse oxidativo, que pode ser resultado de cigarro, obesidade ou má alimentação, por exemplo. Após a pesquisa de fragmentação de DNA no sêmen, se o resultado vier alterado é preciso tratar para evitar a possível predisposição às perdas gestacionais. 


Como lidar com o medo de acontecer de novo e com o luto gestacional?

Se você passou por uma perda e morre de medo de viver novamente esse luto, saiba que é natural sentir medo e tristeza. E colocar para fora esses sentimentos pode ajudar a aliviá-los, trazendo mais segurança também. Para quem engravidou após uma perda, vale muito conversar com o médico, contando de que forma esse medo faz parte da sua rotina. E se perceber que ele está sendo limitante a ponto de atrapalhar nas atividades diárias, vale buscar ajuda psicológica. “Tentar se conectar a essa gravidez, compreender que o corpo e o bebê têm que evoluir em conjunto e fazer atividades que deem prazer, seja caminhada, terapia, meditação ou simplesmente conversar com familiares ou com o parceiro, caso se sinta acolhida com ele, é importante para vencer esse medo e conseguir curtir cada nova fase da gestação”, diz a psicóloga Raquel Benazzi, especialista em luto materno-infantil. 


Você viveu uma experiência de perda gestacional? Receba o nosso abraço e carinho. E se quiser nos contar como tem sido para você, ficaremos honradas em ler sua história.



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