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Parentalidade via adoção: é preciso cuidar de quem cuida

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Parentalidade via adoção: é preciso cuidar de quem cuida

123 Tantas mudanças de política que vimos ao longo dos anos foram porque uma mãe ou um grupo de mães teve o suficiente e precisava ver algo transformado", disse a Dra. Traci Baxley de @socialjusticeparenting, "mães que estão perguntando como podemos fazer isso melhor? Como fazemos isso juntos?

25/05/2022

Mais do que conscientizar que a adoção não é um ato de caridade e sim uma via de parentalidade, nossas estrelas-convidadas Mayra Aiello e Marianna Muradas, criaram um projeto que orienta famílias que desejam seguir a parentalidade via adoção. Se esse assunto te interessa, se aconchegue e nos acompanhe nas linhas a seguir!

Ninguém se torna pai e mãe da noite para o dia. Na maternidade e paternidade biológica, há a oportunidade da preparação para receber o filho acontece a partir do teste positivo de gravidez. E os nove meses que se passam são um tempo não apenas de espera, mas de preparar enxoval, entender sobre a gestação e também sobre o bebê que vai chegar. Famílias que estão numa preparação consciente para a parentalidade começam a se preparar física, emocional e socialmente para desenvolverem uma gestação mais saudável antes mesmo do positivo.


Na parentalidade via adoção, o processo envolve várias fases que pedem um preparo específico e mesmo após estarem habilitados a adotar uma criança, os futuros pais não sabem quando ela vai chegar. O tempo para o tão desejado encontro é indeterminado. Mas não é raro o telefone da Vara da Infância tocar e em poucos dias tudo precisa estar pronto para receber a criança. E aí, até mesmo quem passou anos esperando por esse telefonema, pode sentir que ainda não está preparado o suficiente. E fato é que ao longo dessa espera, as pessoas também vão gerando outros sonhos, vivendo suas demandas de vida e tendo novas experiências.


O que todas essas mães e pais têm em comum é que eles fazem essa “viagem” da espera sem saber o que os aguardam. A única certeza é que quando o filho chega, tudo se transforma. As bases de todas as estruturas recebem um chacoalhão. E quem está um pouco mais preparado e consciente sobre  essas mudanças tem a oportunidade de usar as melhores “ferramentas” nessa fase de adaptação de uma nova dinâmica familiar e identidade psicológica.

E é justamente nesse cenário que atuam a psicóloga e mestranda em psicologia Mayra Aiello,  e a educadora Feldenkrais e doula de parto Marianna Muradas, idealizadoras do Projeto Doulas de Adoção Brasil. Elas ajudam famílias que estão vivenciando a adoção a encararem com consciência e clareza o processo e tudo o que envolve essa parentalidade. Além das famílias atendidas diretamente por elas, Mayra e Marianna também capacitam profissionais a se tornarem Doulas de Adoção, ampliando a rede de amparo amparando as famílias que precisam de ajuda. “Eu fui adotada e a Mayra adotou sua filha Maria. E é importante entendermos, de antemão, que a criança não é uma filha adotiva. Ela foi adotada”, pontua Marianna. Esse entendimento muda não apenas a forma de linguagem, mas a maneira como aquela família, a criança e toda a sociedade passam a olhar para a parentalidade via adoção, quebrando rótulos e tabus.

Como assim doula de adoção?

Doula é uma profissional treinada, que faz parte de uma equipe multiprofissional, que auxilia  e acompanha uma mulher que irá se tornar mãe, assim como seu parceiro ou parceira. “Essa é uma função ancestral, de apoio emocional. A doula é a ponte entre a mulher antes de parir ou virar mãe e a mãe que ela vai se tornar; acompanha as transições e olha para aquela família como um todo, auxiliando-os a enxergar as questões diversas que essas mudanças trazem”, explica Mayra.


O trabalho das Doulas de Adoção envolve o acompanhamento das famílias tanto na parte de cadastro no Sistema Nacional da Adoção , junto ao processo psicossocial do Fórum – vale dizer que elas só acompanham adoções legais – compondo as equipes de preparações (com os Grupos de Apoio). E também na construção do entendimento do que é tornar-se mãe e pai com as especificidades da via da adoção. “A partir do momento que essas famílias dizem sim à adoção, nosso trabalho é mostrar que nunca é tarde para buscar recursos e se preparar enquanto as coisas estão acontecendo. Ajudamos as famílias a pensarem que precisarão de um planejamento administrativo e financeiro, de tempo, de recursos, das dinâmicas da casa e da vida. Que é importante que elas entendam sobre as fases de desenvolvimento infantil, especialmente no perfil que elas se habilitaram a receber”, conta Mayra Aiello. As Doulas de Adoção também têm uma lista de recursos, que contam com psicólogos, pediatras, advogados, grupos de apoio, terapeutas, escolas, entre outros profissionais que a família poderá precisar ao longo da jornada.


O tempo médio de espera para que uma família seja habilitada a adotar gira em torno de um ano no Brasil. Daí até que a criança esteja nos braços dessas famílias, não há um tempo definido pois são diversos os fatores que envolvem esse tempo da espera. Nesse período há uma ambivalência de sentimentos: angústia, choro, expectativa, celebrações, dores e datas comemorativas – como o Dia das Mães ou Dia dos Pais – que são desafiadoras. Essa espera engloba lutos de gestações anteriores que podem ter resultado em perdas ou vazios, como foi o caso de Mayra: “Fiquei seis anos tentando engravidar, tive duas perdas gestacionais . E é preciso que essa espera seja também um processo de cura para estar inteiro quando resolver entrar no caminho da adoção. Hoje eu vejo que o tempo que passei me preparando foi também a vivência da maternidade, e foi necessário. Mas quando você está vivendo esses momentos é como estar no fundo do poço  sem encontrar saídas”, conta ela.

A criança chegou. E agora? 

Todo o  tempo na fila de espera da adoção, no entanto, é como se não tivesse sido suficiente porque há várias dimensões que englobam o cuidado de uma criança e a parentalidade, que acabam não sendo vistos ao longo dos meses e anos. E enquanto na ginecologia e obstetrícia o puerpério, do ponto de vista fisiológico, corresponde aos 40 dias após o parto, o puerpério em sua forma mais ampla, incluindo as transformações psicológicas, sociais e ambientais, dura muito mais que isso. “Já temos literaturas que falam sobre dois a três anos de puerpério. E isso vale também para a parentalidade via adoção. Não é porque a família desejou e esperou muito por esse filho ou filha que ela está isenta de sentir-se perdida, exausta, com hiperfoco nos cuidados, com sentimentos ambivalentes, assim como acontece com os pais biológicos”, diz Mayra.


Olhar para essa questão é importante porque esse é um assunto cercado por tabus e muitas vezes não há espaços seguros e validados para demonstração de emoções. A começar pela escassez de espaços em que compartilhe questões  sobre o pós-adoção. “E você não tem para quem falar sobre os medos e anseios. Só que o mesmo sentimento de não conseguir dar conta que aquela mãe que teve filho biológico enfrenta, a mãe via adoção também sente. Mas essas emoções são encobertas porque os pais têm medo de falar e ter seus filhos levados deles, por exemplo, pelo entendimento que eles não estão preparados para cuidar e criar aquela criança”, diz Mayra.

E é importante entendermos, de antemão, que a criança não é uma filha adotiva. Ela foi adotada

Marianna Muradas

O trabalho das Doulas de Adoção e o acolhimento que acontece nos grupos de apoio à adoção ajudam esses pais a se sentirem mais fortalecidos emocionalmente. Todo trabalho de autoconhecimento, empatia, reflexão sobre as dinâmicas familiares e desejos é válido para se preparar para o puerpério. Essa troca com outras famílias, a ampliação do olhar  sobre os sentimentos e  desromantizar a maternidade e paternidade são fundamentais. “É lindo quando a criança chega? Muito! Mas nem por isso é menos desafiador. Há muitas sombras e muitos medos”, conta Mayra.

A boa notícia é que o puerpério não se resume à dor. Ele é também um portal para a criatividade, o vínculo, a resiliência. Mayra e Marianna, por exemplo, fundaram o Doulas de Adoção quando estavam vivendo o aA boa notícia é que o puerpério não se resume à dor. Ele é também um portal para a criatividade, o vínculo, a resiliência. Mayra e Marianna, por exemplo, fundaram o Doulas de Adoção quando estavam vivendo o auge de seus puerpérios. “Esse encontro com as nossas dificuldades faz com que a gente encontre novas soluções, ferramentas e formas de fazer algo diferente, seja um novo ritmo, uma nova rotina, um novo trabalho que faça mais sentido, uma nova casa e outras formas de se relacionar consigo mesmo e com os outros, além de irmos adquirindo novas potencialidades. Assumir novas tarefas nos tira da zona de conforto e até a neurociência reconhece que criamos novas conexões neurais a partir das novas necessidades”, dizem as especialistas.

Tornar-se mãe e pai é um processo e é muito desafiador. É preciso se permitir acessar sua máxima potência, ao mesmo tempo em que existe um convite para ser mais humano e afetivo. Praticamente um restart no sistema! E vale entender que cada pessoa vivencia essa transição de uma maneira, pois tem seus atravessamentos sócio-histórico e culturais, assim como o vínculo que o pai e a mãe têm com a criança pode não ser o mesmo. Cada um vai se vincular com a criança no seu tempo. E isso pode virar bloqueio ou tornar-se uma ponte. Tudo dependerá de como isso será conduzido.

E é assim que na vivência da parentalidade os desafios não terminam quando a criança cresce. Um dos medos mais comuns dos pais via adoção é a criança expressar desejo de conhecer os pais biológicos, Mayra e Marianna orientam: “Na adoção a história da criança deve ser contada e narrada sempre e o quanto antes, sem medo, sem receios e esclarecendo as principais dúvidas, de forma natural e respeitosa. Existem estratégias como o álbum de história de vida do Instituto Fazendo História que auxiliam nesse contato com as fotos, fases e pessoas que foram importantes para o filho que foi adotado, de forma que as histórias de vida se integrem na história da familia “Mas, e se meu filho quiser conhecer os genitores dele?” Ele tem esse direito e, se ele desejar, você poderá ir junto. O mais importante é que seu filho saiba que você é seu porto seguro e que estará ao lado dele nesse e em outros momentos  importantes. Ele pode ir, mas sabe para onde voltar pois a relação entre vocês é baseada na verdade”, concluem. Conhecer a sua biografia e história de vida é direito de todo indivíduo e contribui para a conexão e segurança emocional, e consequentemente para o desenvolvimento saudável de todos da família. E assim todas essas histórias serão contadas juntos.

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