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Amo meu filho, mas não gosto das funções maternas

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Amo meu filho, mas não gosto das funções maternas

Que mãe nunca sentiu vontade de ficar longe dos filhos e fazer apenas o que tinha vontade? Por que ainda vemos como ilícitos os questionamentos que rondam nossa cabeça sobre a escolha de ser mãe? Puxa uma cadeira e vamos conversar sobre isso!

22/12/2022

Denso, profundo e bastante incômodo. Assim é o filme “A Filha Perdida”, adaptação do romance homônimo da consagrada escritora Elena Ferrante. A narrativa da história coloca em xeque a visão romantizada da maternidade, da mãe que faz de tudo por seus filhos e ama incondicionalmente, não se importando em ficar em segundo plano. 


É muito provável que todas nós, mães, em algum momento já vivenciamos os sentimentos ambivalentes em relação à maternidade, e tenhamos a enorme vontade de, assim como a protagonista Leda (Olivia Colman), ser e fazer o que quisermos, como quando não éramos mães. 


Temáticas como liberdade, carreira e maternidade são o tempo todo colocadas à prova, levantando a “poeira” que muitas de nós insiste em jogar para debaixo do tapete.


O ponto mais polêmico do filme – não queremos dar spoiler, caso você não tenha assistido, mas é bem difícil falar da obra sem citar essa parte – é quando Leda, a protagonista, resolve abandonar as filhas, Bianca e Martha, de sete e cinco anos, e o companheiro para ir ao encontro de sua própria vida, vontades e desejos. Obviamente, o filme causou o maior burburinho do público, dividindo opiniões: de um lado mães que se sentiram representadas – mesmo que nunca tenham abandonado os filhos – e de outro, pessoas que julgaram absurda a ideia de ambivalência dos sentimentos maternos. 

Mas, afinal, por que os sentimentos e as atitudes vivenciadas por Leda nos causam tanto incômodo? Porque ouvimos tanto dizer que a mulher vai se arrepender se não tiver filhos, mas nunca perguntamos para quem já teve filhos se, em algum momento ou de alguma forma, se arrependeu de ser mãe? Foi para tentar responder essa pergunta espinhosa e complexa que a socióloga israelense Orna Donath escreveu o livro “Mães Arrependidas – uma outra visão da maternidade” (traduzido para o português). 


Em sua obra – que, confesso, ficou pegando pó na minha estante por quatro anos até que eu tivesse coragem para começar a leitura – Orna, que optou por não ter filhos, traz depoimentos de 23 mulheres, de perfis diversificados, que afirmam ter se arrependido de serem mães. Suas identidades são preservadas, assim como os nomes e idades dos filhos não são pontuais. 

Amo meu filho, mas não gosto de ser mãe

Para boa parte das entrevistadas, o arrependimento vem de um lugar de sobrecarga materna, das tantas obrigações para dar conta quando se tem filhos. Jasmine, uma das entrevistadas, mãe de um filho com idade entre 1 e 5 anos, como descreve a autora, conta que: 

“Eu chego do trabalho às cinco da tarde e não tenho muita energia. Eu quero… sei lá, me sentar, ler um livro. Ficar olhando para o teto e pensando, mas não posso. É isso que me frustra. E começa às duas da tarde, quando sei que em algumas horas vai começar a minha segunda jornada. E então, o que faço, como passo o tempo; e se minha mãe não está comigo e estou sozinha com ele, sou a única para correr atrás dele, e isso me deixa nervosa. O tempo todo, o tempo todo. Travo uma luta diária com esses sentimentos.”


Sem  dúvidas, todas as mulheres entrevistadas por Orna Donath amam seus filhos. Assim como Leda também ama suas filhas. Mas a questão é que se essas mulheres entrevistadas pudessem voltar no tempo e decidir se queriam ou não ser mães, sabendo o que a maternidade significa e implica, muito possivelmente optariam por não ser mães. ara a psicóloga clínica Ligia Dantas, especialista em Reprodução Humana, idealizadora do Entra Na Roda, temos tanta dificuldade de falar sobre essa temática espinhosa das ambivalências da maternidade porque a posição da mulher mãe segue sendo vista como sagrada. “O mistério da vida segue se revelando através do ventre da mulher. E algumas pessoas tendem a localizar o valor da mulher aí. Mas a partir do ponto que as mulheres passaram a ter mais estudo, se dedicaram à carreira e se apropriaram mais da sua sexualidade, com a revolução da pílula anticoncepcional, que permitiu sair para o mercado de trabalho, muitos aspectos da maternidade vieram à tona”, conta.


Para Lígia, o grande desafio está em compreender que vivemos um tempo em que o ato de conceber ainda é milagroso do ponto de vista do divino, então a mulher tem esse lugar, mas isso não significa que ela deve estar identificada somente nisso. “Quando a Leda fica três anos longe das filhas, fica claro que existia ali uma mulher além da mãe e ela precisava resgatar essa mulher. Havia outros desejos além da maternidade e que pesavam muito, levando-a ao encontro desses desejos. E é importante que a mulher saiba reconhecer quais são os seus desejos e vá em busca deles, procurando no dia a dia momentos de escape, de viver essa mulher que há dentro dela, além da mãe. Apesar de pouco aceitável socialmente, essa busca é muito saudável para a mulher”, diz.


Escolhas, culpas e angústias maternas 

Se até algumas décadas atrás sequer era questionado se a mulher desejava ser mãe ou não, afinal, ela foi feita biologicamente para gerar, e ir contra isso era visto como ir contra a própria natureza de ser mulher, com a revolução causada pela pílula anticoncepcional e os métodos contraceptivos, as mulheres passaram a ter maior capacidade de escolha. E por mais que seja inegável a liberdade de poder escolher, nem sempre ser mãe é uma escolha tão consciente. Para Orna Donath, não é porque as mulheres têm mais opções que elas se tornam mães pura e simplesmente por vontade própria. “Ao ouvir o que as mulheres têm a dizer sobre como se tornaram mães, percebemos que os diferentes caminhos que as levaram à maternidade são muito mais complexos. Essa diversidade pode nos mostrar que nem sempre está claro se a maternidade é algo que as mulheres perseguem ou algo que “simplesmente” acontece a elas”, escreveu a socióloga israelense.


Essa escolha, segundo Lígia Dantas, tende a gerar muita angústia, afinal, quando escolhemos um caminho, estamos abrindo mão de outras possibilidades. Trazendo para o filme, a psicóloga diz que Leda abriu mão não da maternidade, mas daquele estereótipo imposto do que era ser uma boa mãe. “Ela abriu mão da convivência, do contato, e isso também gerou nela culpa e dores. Dores que eram somatizadas no corpo de Leda, que tinha fortes dores de cabeça, desfalecendo. Talvez a culpa que ela sentia era justamente porque ela foi contra o modelo imposto às mulheres e às mães. E isso me faz pensar o quanto é importante conversarmos com as nossas filhas que há modelos de mulheres e que não cabe uma regra universal a todas elas”, diz. 

Rede de suporte e menos sobrecarga materna

Outro ponto importante no que diz respeito aos sentimentos ambivalentes da maternidade é que as mães estão sempre sendo cobradas para darem conta de tudo, para deixar tudo perfeito. Mas cabe lembrar que as mães são humanas e esse tipo de cobrança, externa e interna, não faz bem nem às mães, nem aos filhos e nem às famílias. Porque ninguém é sua melhor versão quando está sobrecarregado. “Precisamos ter em mente que não vamos conseguir conciliar tudo. E também que cuidar de uma criança não é uma tarefa única e exclusivamente das mães. É responsabilidade daqueles que estão ao redor da criança. E é um exercício diário tanto para a mãe que aprendeu que é a única pessoa capaz de suprir as necessidades dos filhos, quanto dos pais ou da parceria que está junto a essa mulher”, diz Ligia Dantas. 

O mais importante é não se deixar levar pela culpa, autojulgamento ou até mesmo julgamento alheio quando a mulher se afasta da função de mãe para fazer algo que lhe faz bem enquanto mulher e ser humano, seja uma viagem com as amigas ou um curso fora da cidade ou até mesmo do país, por exemplo. 

O que a criança precisa para se desenvolver bem é de um apego seguro, e isso não deve vir só da mãe, mas também do pai ou da parceria, que vai conduzi-la e dar contorno às suas vivências. Por fim, a psicóloga diz que essas reflexões expostas na narrativa de “A Filha Perdida”, são importantes para ajudar as mães a encararem de frente seus pontos altos e baixos, entendendo que não são onipresentes e não deve partir delas tudo o que uma criança precisa. Ao descentralizar os cuidados e necessidades da criança de si, a mãe se permite viver sem culpa o que faz bem para ela, e também permite que aquela criança que já está mais preparada para o mundo viva novas e importantes experiências, além do seu colo de mãe. “Quando pensamos nesse limite entre a mãe e a criança, vemos o quanto ele é importante. Ao nos autorizarmos ter outros desejos para além da maternidade, estamos autorizando também que nossos filhos desejem algo além de nós”, conclui a psicóloga.

Faz sentido para você esses aspectos abordados aqui? Stellar acredita que quando as mães se unem e tomam coragem para falar de temáticas delicadas como essa, nos fortalecemos e deixamos cada vez mais de lado os julgamentos e as concepções do que é ser uma “boa” mãe. Porque no fundo, precisamos aprender a respeitar os nossos sentimentos e dar vazão às nossas vontades e necessidades enquanto mulheres também. Sentimentos ambivalentes sempre vão aparecer e é importante não jogar essa poeira para baixo do tapete. Se você tem um relato ou uma sugestão de tema para nós, envie para info@stellar.shop

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