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Maternidades plurais com Letícia Tomazella: apesar dos mitos e narrativas, ser madrasta também é maternar

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Maternidades plurais com Letícia Tomazella: apesar dos mitos e narrativas, ser madrasta também é maternar

Em torno de todo um imaginário pejorativo construído pela cultura, como é o dia a dia, a subjetividade, os direitos e deveres das madrastas? Conversamos com a atriz, escritora e madrasta de dois, Letícia Tomazella, sobre as alegrias e dissabores do cotidiano de uma mulher que decidiu não ter filhos e exerce a maternagem enquanto madrasta.

25/11/2022

Crescemos acompanhando narrativas que apresentam a figura da madrasta como uma pessoa má por definição, basta nos lembrarmos da Rainha Má da Branca de Neve, ou ainda a Madrasta Malvada da Cinderela. Embora atualmente a indústria do cinema se oponha a esses estereótipos, eles ainda percorrem o imaginário de muitas pessoas. Paralelo a isso, a figura da madrasta e do padrasto é comum em muitas famílias, razão pela qual se faz necessário rever esses papéis sociais. Afinal, para quem se divorciou, a madrasta dos filhos é uma figura fundamental no cuidado e na educação das crianças. Para entendermos melhor sobre a subjetividade, o dia a dia, direitos, deveres das madrastas, entrevistamos a atriz e escritora Letícia Tomazella, autora do livro “Madrasta é a mãe: reflexões sobre uma maternidade marginal”.

Letícia é atriz, escritora e madrasta de dois meninos. Empreendedora e gestora da própria carreira, é uma mulher que até o momento decidiu não engravidar e, ao se casar com um companheiro pai de dois filhos, viu-se na tarefa de maternar, apesar dos dissabores que esse papel social impõe. É formada em Letras, com mestrado em teatro brasileiro, e também se formou atriz pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo. Fez novelas, filmes e peças de teatro. Seu espetáculo mais recente foi Freedom City, do dramaturgo escocês Davey Anderson, direção de Davi Reis, que ficou em cartaz no Centro Cultural São Paulo (2022) e acaba de lançar seu curta-metragem (roteiro e atuação seus, direção de Sergio Roizenblit) chamado “Uma Atriz Irrelevante”, que foi recentemente selecionado para fazer parte do Boden International Film Festival, e levou o louro de finalista como Melhor Atriz.

Quais são os mitos sociais que envolvem o papel de madrasta? Como você lida com eles?


Muitos são os mitos em torno da madrasta, e sempre pejorativos. Desde os contos de fada, crescemos com a imagem de que essa mulher é uma intrusa, uma malvada e que é incapaz de boas ações. Mesmo que isso pareça infantil, no dia a dia lidamos com as consequências desse imaginário todo, como a falta de confiança das pessoas em nossa capacidade de maternar e amar nossos enteados. Eu hoje lido com esses mitos por meio de muita conversa e paciência, sempre que alguém se aproxima de mim e da minha família com preconceito. 

Quais são as implicações legais da relação da madrasta e seus enteados?


Embora eu não seja advogada, conheço algumas dessas implicações. A madrasta é considerada, por lei, parente por afinidade, e portanto tem direitos e deveres. Ela pode postar fotos na internet se quiser, sem ter que pedir autorização da mãe, por exemplo. Obviamente fotos bacanas, pois nenhum adulto (nem os pais) pode publicar fotos que depreciem a criança. 


A madrasta tem também prioridade de guarda em caso de orfandade por pai e mãe. Antigamente, nessas situações, a prioridade de guarda do menor seria dos avós. Atualmente, caso a madrasta ou padrasto tenha construído uma relação com a criança, a prioridade é dela(e). 


A madrasta é parte do chamado “núcleo familiar paterno”, então ela tem direito de cuidar da criança (independentemente da presença do genitor), levar à escola, médico e outras necessidades da criança. Todos os adultos responsáveis e corresponsáveis pela criança têm obrigação de zelar pelo bem-estar do menor, não apenas os genitores. 


Resumindo, é legalmente uma família, mas o padrasto e a madrasta não têm a chamada autoridade parental, isto é, o conjunto de direitos e deveres dos filhos menores, com objetivo de propiciar o desenvolvimento integral de sua personalidade e saúde (esta é dos genitores). No mais, ela é parte da família e tem seu lugar legítimo.

Como é a sua relação com seus enteados?


Profundamente amorosa. Cuido como filhos, porque eles são. São as crianças da casa, e não importa que não tenham nascido da minha barriga: são os filhos do mundo, é nossa obrigação criar com dedicação e amor.

Qual o maior desafio de ser madrasta?


Acho que o que realmente faz a madrasta sofrer é a falta de pertencimento, por isso lutei até sentir que pertencia. Mas para sanar isso, há um longo e profundo percurso.

No início, eu sentia medo da rejeição, do não-pertencimento e de eles serem infelizes na nova configuração. Tinha muito medo. Tinha a sensação de que, para minha chegada compensar para eles, eu deveria ser impecável. Só que isso me sobrecarregou e chegou a me adoecer. Então fui também reconceituando coisas. Que bom que o que aconteceu, na verdade, foi muito mais bonito do que nossa mente poderia desenhar. Hoje, amamos ter a família que temos, do jeito que ela é.

Acho que o que realmente faz a madrasta sofrer é a falta de pertencimento, por isso lutei até sentir que pertencia.

Letícia Tomazella

Quais são os mitos sociais em torno das mulheres que decidem não ser mães?


As pessoas veem uma mulher sem filhos como alguém impotente, solitária, triste e até egoísta. Escolher não ter filhos soa egoísmo, como se aquela mulher não fosse capaz de se doar a alguém. Isso é um completo absurdo. O mesmo não se diz sobre os homens que não são pais. Homens são vistos socialmente como pessoas que podem focar em suas carreiras, mulheres não. É tão profundo esse tema para as mulheres, que a decisão sobre a maternidade é tema de terapia de muitas de nós. 


Os homens raramente entram na crise da paternidade. Não há paternidade compulsória, mas há a maternidade compulsória, então a conta não fecha. Dói porque essa cultura toda nos pressiona o tempo todo, inclusive nas entrelinhas. Basta estar em rodas de amigas mulheres, e você verá que há mães ali, sempre mães, e cujo tema é, muitas vezes, maternidade. Não se convida uma mulher que não é mãe para esses encontros, não se escuta o que ela tem a dizer e trazer sobre crianças. Raramente se convida uma mulher que não é mãe para ser madrinha do filho. Convidam-se outras mães. 


O que mais me incomoda é ver que a paternidade não ocupa os assuntos de rodas de homens, o que gera desigualdade. 

Como você administra seu tempo com relação ao cuidado e à educação de seus enteados, combinando-os com suas aspirações particulares e com os sonhos que tinha antes de se tornar madrasta?


A partir do momento que ganhei uma família, minha vida não é mais a mesma e nunca será. Não tem como ser. Quando me casei, fui dormir mulher-solo, acordei matriarca de um núcleo familiar. Tive uma adaptação amorosa, protegida pelo meu companheiro e meus enteados, mas isso não quer dizer que eu não tive ou não tenha crises e desafios. Tenho vários, volta e meia. Por isso escrevi o livro “Madrasta é a Mãe”. Eu não planejei ser mãe e achei que fosse ser uma mulher-solo por muito tempo. Ganhei muita coisa boa, e perdi um tanto de privacidade e individualidade, que busquei resgatar quando me dei conta. Então tento hoje equilibrar as coisas. Ora estou mais entregue aos cuidados e demandas da família, ora percebo que preciso da minha solitude, sinalizo e preservo como posso. Afinal, tenho uma carreira e muitos sonhos ainda para construir. Mas adoro também educar, cuidar da vida escolar, me dedicar. Gosto do vínculo que fomos criando e busco também alimentá-lo, mas quando percebi que podia me perder nisso tudo, nadei para não me afogar e me fortaleci.


Como você, enquanto madrasta, lida com a função social de que a mulher é responsável pelo cuidado e bem-estar da família?


É difícil isso, porque, mesmo criando consciência sobre essa carga e a divisão desigual de gênero no lar, volta e meia me peguei me perguntando com frequência se as crianças escovaram os dentes, se tomaram banho, cuidando do horário e da alimentação de todos. Quando a gente vê, virou a fiscal da saúde e dos hábitos de todos na casa, porque nós, mulheres, crescemos vendo que ser mãe é isso, e se não tem isso, ainda mais sendo madrasta, parece que não há amor.


Você acha que uma família reconstruída a partir de um novo casamento (ou outras formas de união) pode funcionar como uma família construída originalmente?


Sim. Na prática e na lei, o novo matrimônio instaura uma nova família. E se os adultos da história tiverem maturidade e sapiência, vão saber conduzir todos, inclusive as crianças, para que reconstruam os conceitos sobre família. Hoje, aqui em casa, temos verdadeiramente um lar, cuja tônica é o amor. E esse vínculo profundo fica para sempre. A consanguinidade é apenas um fator de formação de família. Existem outros tantos que a compõem.


Você sente alguma pressão de recompensar seus enteados nas dores que eles enfrentam devido à separação de seus pais?


Não. Mas sei de famílias que têm essa questão. Aqui em casa a gente não lida com o divórcio como um fracasso. Como bem diz Françoise Dolto, o divórcio não é um fracasso, é uma passagem importante da vida como outras. Apenas mais uma. Isso de que o divórcio é trágico também é algo que já pode ficar no século passado. Claro que dói, separação dói. Mas, se bem conduzida, os filhos podem sentir que não há perdas: há rupturas que trazem acréscimos. Não precisa ser uma família desfeita, e sim uma família refeita, ampliada. Então aqui essa questão não rolou. O que aconteceu foi que eu e meu marido educamos os meninos para entenderem verdadeiramente o que é uma família.


Como você interpreta essa afirmação: “Ser mãe faz parte da vida da mulher”?


Não acredito que isso seja verdade. Se a mulher não quiser ser mãe, isso não faz parte da vida dela. Por que deveria fazer? Há tanta coisa importante para fazer no mundo, não precisamos, todas as mulheres, fazer a mesma coisa. Quem quiser ser mãe, seja. Quem não quiser, não seja. Sei que ainda é difícil sustentar a decisão de não ser mãe. A onda nos empurra fortemente para ser, mesmo que depois, ao sê-lo, você precise cair muitas vezes – porque ser mãe não é fácil. Mas sustentar a decisão de não ser é uma dor que rasga o peito diariamente, porque todos os dias existe uma ampulheta do nosso lado dizendo que o prazo biológico vai acabar e tem sempre alguém para dizer que você vai se arrepender.


Como você interpreta essa afirmação: “Mãe é uma só”?


Muitas deveriam ser as mães e também os pais de uma criança. Como nas aldeias indígenas, em que o coletivo é quem cuida. Criar uma criança sozinha é desumano. Deveríamos aceitar que mãe não há só uma. Que sorte têm as crianças que têm madrastas que as amam – e que podem, então, contar com mais de uma mãe.


Por que você decidiu escrever uma obra sobre sua experiência enquanto madrasta?


Eu precisava falar sobre pertencimento, exclusão, conflitos, apegos, ciúmes, muita coisa. Mas para sanar isso, há um longo e profundo percurso. Ler o livro pode ajudar as madrastas, trazer insights, reflexões e acolhimento para angústias que nem sempre foram ouvidas ou até ditas. Hora de soltar nossa voz. A gente pertence. É um papel feminino trabalhoso que precisa ser desinvisibilizado com urgência!

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