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Muitos brinquedos pode deixar a criança superestimulada?

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Muitos brinquedos pode deixar a criança superestimulada?

Cada vez mais fica claro para especialistas que o excesso de brinquedos e estímulos pode ser prejudicial ao desenvolvimento dos pequenos.

30/10/2023

Cada vez mais fica claro para especialistas que o excesso de brinquedos e estímulos pode ser prejudicial ao desenvolvimento cognitivo e emocional dos pequenos. Quem nos ajuda a entender mais sobre o assunto é a estrela-convidada Fernanda Fonseca Teles, que é psicóloga e mentora de famílias

A motivação para essa pauta foi um vídeo que circula nas redes sociais de uma garotinha, cujos pais ingleses resolveram tirar boa parte de seus brinquedos de circulação e a estimulam com objetos sensoriais do dia a dia, que todos nós temos em casa, como: caixas de ovos, pincel, tinta, flores, folhas, algodão, pedrinhas… O dia a dia e os aprendizados são divididos no perfil “Sala de brinquedos da Mabel”, que se tornou uma comunidade para pais e educadores que buscam um estilo de vida mais conectado à natureza e uma infância menos “plastificada”. No vídeo, um depoimento da mudança de comportamento da criança após deixar de ter acesso a muitos brinquedos e passar a ter contato com esses elementos citados acima, se tornando mais criativa, focada, menos irritada e mais afetuosa. 

Mas, afinal, existe mesmo relação entre o excesso de brinquedos ou estímulos e as alterações de comportamento? “É complexo afirmar uma relação direta porque isso vai depender de diversos fatores, como idade, natureza dos estímulos, quantidade de estimulação, a sensibilidade individual das crianças, o contexto que ela está inserida. Agora, com certeza podemos afirmar que os pais precisam estar muito atentos aos níveis de estimulação infantil, ao tipo de brinquedo, ao uso excessivo de telas e brinquedos com atividades sensoriais hiper estimuladas, como sons e luzes”, conta a psicóloga Fernanda Fonseca Teles, que é psicóloga e mentora de famílias. 

A especialista destaca que, a depender dos fatores citados acima, algumas crianças lidam melhor com ambientes com um pouco mais de estímulos, já outras podem ser impactadas negativamente com esse ambiente mais caótico. “Lembrando que natureza, afeto, relações familiares com respeito e carinho e presença sempre valem mais! As relações interpessoais quando mais valorizadas do que os brinquedos são fundamentais para o desenvolvimento saudável das crianças. É preciso equilíbrio entre as relações, livre brincar e em alguns momentos essas brincadeiras com os brinquedos”, reforça.

Fernanda Teles contou à Stellar que existem quatro aspectos super importantes que merecem atenção. São eles: 

1. Sobrecarga sensorial – Quanto menor a criança, mais sensível aos estímulos ela tende a ser. Luz forte, barulhos altos, agitação ao redor… tudo isso a afeta de forma mais intensa.  “Inclusive, existe uma preocupação grande com crianças dentro do espectro autista, com TDAH ou outros tipos de neurodiversidade que as tornam naturalmente mais sensíveis. E isso pode levar a comportamentos mais agitados, irritabilidade e ansiedade”, diz. É necessário que o ambiente da criança seja calmo e tranquilo. 

2. De olho na quantidade – Estudos mostram que os estímulos excessivos podem afetar o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança. Isso não significa que a criança não possa ter brinquedos mais sensoriais e barulhentos. “Porém, se na maior parte do tempo ou em boa parte do tempo ela está distraída com esses brinquedos hiperestimulados, a tendência é que ela tenha mais dificuldade para se envolver com brincadeiras imaginativas, com o livre brincar, com o brincar na natureza, afinal, ela conhece mais os brinquedos já prontos e que levam a esses estímulos mais intensos. E sabemos que esse tipo de brincar livre é muito valioso para o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança”, afirma a especialista. No entanto, isso precisa partir da observação dos pais e cuidadores, porque não existe uma regra que diga a quantidade de brinquedos estimulantes que estariam dentro do saudável. Isso vai muito do bom senso, de olhar para o ambiente da criança com um olhar um pouco mais crítico para “ler” os comportamentos, se perguntando: será que essa irritabilidade tem a ver com o excesso de brinquedos ou estímulos proporcionados por eles? Será que isso é recomendado para a faixa etária da minha criança? 

3. Nível de foco e atenção da criança – Muitos estímulos interferem diretamente nessa habilidade da criança, deixando-a com bastante dificuldade de se concentrar, de realizar tarefas. Vale dizer que a organização dos brinquedos, de acordo com tipos e características é muito importante para auxiliar a criança na hora do brincar. Porque se os brinquedos estão todos juntos numa mesma caixa ou baú, eles não estão organizados, estão apenas aglomerados, e isso dificulta que a criança interaja com o brinquedo ou faça escolhas de brinquedos. Então, além dos brinquedos estimulantes, ainda existe essa questão do excesso de brinquedos e da falta de organização, de forma que a criança não consegue se concentrar em um ou outro. Fazer um rodízio dos brinquedos é uma boa opção porque permite à criança conhecer melhor e interagir com os brinquedos que tem, e ainda dá aquela sensação de novidade ou descoberta quando após um tempo sem contato com determinado brinquedo, ela reencontra com ele nesse rodízio. É quase como se ela tivesse acabado de ganhar um brinquedo. Lembrando sempre que mais importante que o brinquedo é o brincar. E quanto mais livre, imaginativo e em contato com a natureza for esse brincar, melhor! 

4. Hábitos de consumo – É importante tomar cuidado com o tempo que a criança passa assistindo canais infantis na internet ou televisão. Isso porque esses canais costumam ser repletos de propaganda, o que estimula que ela queira levar a loja inteira de brinquedos para casa. “Muitas vezes, no próprio desenho já tem o uso de um brinquedo que faz parte do roteiro e a criança vai querer aquilo. Deixar a criança em contato com esse mundo de consumo é perigoso porque pode contribuir para o consumismo e imediatismo, pois o prazer está em abrir um novo brinquedo sempre. E isso explica porque esses canais com influencers infantis abrindo brinquedos fazem tanto sucesso. É preciso que os adultos administrem muito bem esse tempo de telas e consumo das crianças para que ela não caia no que chamamos de infância plastificada”, alerta Fernanda. 

A criatividade e o afeto também podem ser afetadas

O excesso de brinquedos, especialmente os altamente direcionados, com passo a passo, mostrando qual caminho a criança vai seguir, por exemplo, podem limitar a criatividade e o afeto das crianças. “Em alguns casos, o excesso de brinquedos pode competir com o tempo que os pais dedicam aos seus filhos. E isso pode prejudicar a qualidade dessas relações afetivas. E pode ainda se estender entre as crianças e seus colegas. É muito comum as crianças se reunirem e ficarem no videogame ou com o celular em mãos nos jogos. Essa distração da conexão familiar quando tem brinquedos demais ou estímulos demais fazem com que as crianças se distraiam bastante, enquanto os pais estão ocupados com outros compromissos”, diz. Num primeiro momento, esse impacto negativo pode nem ser percebido, mas é fato que no futuro podem gerar impactos maiores na criança. “Estamos vendo em adultos como o uso excessivo de eletrônicos está repercutindo com mudanças negativas, como ansiedade, um QI menos elevado, falta de diálogo. E não podemos esquecer que a comunicação entre pais e filhos é fundamental para as relações, o afeto e o desenvolvimento. Crianças precisam se sentir amadas, aceitas e importantes. Precisam se sentir vistas”, ressalta. Na falta disso tudo, existe um prejuízo, inclusive na autoestima da criança, com reflexos no adulto que ela vai se tornar. Vale sempre lembrar e reforçar que a natureza, por si só, é um laboratório riquíssimo e muito importante para o desenvolvimento infantil, a imaginação, a criatividade e os comportamentos sociais. 

Sinais de alerta

Dificuldade de concentração, comportamentos impulsivos e agressivos, frustração, alterações no sono (tanto interrupções quanto na qualidade do sono), hiperatividade, sensibilidade sensorial aumentada (com barulhos e luzes muito fortes a criança cobre os olhos e ouvidos), desafios emocionais (crises de choro, de raiva), desinteresse por brincadeiras ou atividades mais criativas, ao ar livre ou por esportes podem ser sinais de alertas que indicam hiperestimulação em decorrência do excesso de estímulos. “Esses sinais podem acontecer após um evento específico, permanecendo por curto tempo. Mas se persistirem, é muito importante que os pais procurem ajuda”, finaliza a psicóloga.

O que fazer quando o presente é atrelado ao amor à criança?

É preciso lembrar que o presente é uma linguagem de amor forte na criança. Está enraizado em nossa cultura, especialmente por parte dos familiares, como avós, tios, madrinhas e padrinhos. “Quando famílias com recursos financeiros que permitem fazer muitas compras, viajar bastante e comprar presentes para os filhos, me procuram tentando equilibrar esse comportamento, a pergunta que eu sempre faço é: como estão as relações familiares, os afetos, o brincar livre? Se existe equilíbrio, você pode ir dosando a quantidade de brinquedos e fazendo o rodízio desses brinquedos, por exemplo. Outro ponto é: o que a criança está fazendo com os brinquedos que ficam parados em casa quando os novos chegam?”, reflete. Envolver os pequenos em campanhas de doação é uma forma importante de mostrar a solidariedade e valores fundamentais. O maior problema nesses casos não é comprar brinquedos numa frequência maior que a média, é não ensinar a criança a dividir, não querer doar, não envolvê-la com a realidade ao seu redor. “Levar a criança em campanhas em que ela mesma vai e entrega a sacola de brinquedos a outras crianças, por exemplo, é uma excelente forma dela entender que quando um brinquedo novo entra, um outro pode sair”, diz. 

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