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Em roda de conversa, pediatra Daniel Becker fala sobre os cuidados essenciais com as crianças

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Em roda de conversa, pediatra Daniel Becker fala sobre os cuidados essenciais com as crianças

No Início do mês de outubro aconteceu na Loja Natura da Oscar Freire (SP), o lançamento de novos produtos da linha Mamãe e Bebê, sem fragrância, voltados para bebês e crianças de peles sensíveis. Nossa redatora, a jornalista Aline Dini, participou do evento de lançamento, que contou com a presença do sanitarista e pediatra Daniel Becker, para tirar dúvidas sobre os cuidados com as crianças. Veja aqui a cobertura completa e as dicas de ouro do especialista.

21/10/2022

Você já parou para pensar que a pele do bebe é mediadora do vínculo? Que a pele “entende” o toque e é capaz de produzir mediadores bioquímicos e biológicos a cada toque? E que eles têm a  habilidade de comunicar a pele ao Sistema Nervoso Central? Confesso que eu nunca havia parado para pensar na pele dessa forma. Eu sabia que ela era o maior órgão do corpo e que merece a devida atenção. Agora ligar a pele, o toque ao vínculo dessa maneira tão intrínseca, foi surpresa para mim. Esse aprendizado veio logo no início do evento de lançamento dos novos produtos sem fragrância da linha Mamãe e Bebê, através de uma das porta-vozes da marca. E foi mais incrível ainda descobrir que, ao longo do tempo, quanto mais tocamos o bebê de forma afetuosa, o cérebro vai traduzindo esse toque e interpretando esses sinais. Sinais que nós nomeamos como cuidado, amor, atenção… Demais, não é mesmo. E para aprofundar ainda mais sobre os cuidados essenciais com as crianças, em roda de conversa no evento, o pediatra Daniel Becker também compartilhou reflexões sobre os desafios da parentalidade nos tempos de hoje. 


Os produtos

Para as famílias com bebês de peles sensíveis, Mamãe e Bebê apresentou a nova linha sem fragrância, que conta com dois novos produtos com fórmulas seguras, dermatologicamente e oftalmologicamente testados, veganos e recomendados para uso desde o primeiro dia de vida dos bebês. 

Entre os lançamentos, o Sabonete sem fragrância, que não arde os olhos; o Hidratante sem fragrância, que tem rápida absorção e hidratação imediata; e o Lenço umedecido, para uma limpeza suave e delicada, assim como algodão e água.

A construção do ego a partir do vínculo

Outro grande aprendizado veio com a fala do pediatra e sanitarista Daniel Becker. Ele contou que a construção do ego é feita a partir do vínculo: “O bebê passa a ser alguém através do vínculo. Não é apenas uma conexão importante, uma pista de decolagem para o desenvolvimento da criança. Cuidar de um bebê – que não tem ego – é dar e receber amor de alguém que está no seu mais absoluto desamparo. O amor que vem do bebê para nós é absoluto porque ele está construindo tudo o que é a partir do vínculo. E cuidar de uma pessoa que sequer tem ego é a maior responsabilidade que temos na vida”, disse o pediatra. De tirar o fôlego, não é mesmo?

Cuidados com as crianças: aprendizados fundamentais

Ao longo do evento, quem estava presente teve a oportunidade de participar de uma espécie de “roda de conversa” com o pediatra Daniel Becker. Anotei as falas do médico e agora compartilho aqui com vocês, divididas por tópicos:

  1. Parentalidade distraída: acontece aí na sua casa?

As redes sociais estão ocupando o lugar do convívio. Isso é universal em qualquer classe social e lugar da vida humana. O celular é um grande interferente do relacionamento de crianças e seus pais. E essa interferência criou uma nova categoria de estudos na infância: PARENTALIDADE DISTRAÍDA, que resulta em precarização dos vínculos e problemas comportamentais sérios. Precisamos urgentemente retomar esse vínculo. 

  1. O saldo da Pandemia do Coronavírus na vida das crianças 

A Pandemia teve dois lados: o lado de hibernar no domicílio famílias inteiras, e tiveram pais que passaram a conhecer os filhos, de fato, a partir desse momento. Por outro lado, essa convivência se deu num ambiente extremamente carregado. Carregado de medos, de lutos, perdas terríveis, angústia. As crianças viveram com pais sobrecarregados pelo trabalho online ou aqueles que vivenciaram o trabalho presencial e havia um medo absurdo de contaminar seus entes queridos. Pessoas que perderam rede de apoio… Por um lado, tivemos esse convívio intenso que foi bom para lares onde havia harmonia, equilíbrio e conseguiram gerenciar as situações. Inclusive, no consultório, vi crianças tendo saltos de desenvolvimento incríveis nesse período. 


Já as crianças que viveram em ambientes de desarmonia, tiveram impacto negativo. Outro ponto é que, exilados em casa, tiveram quase nenhum contato com a natureza, aumento expressivo de comida processada, perdas de socialização, perda da escola, o que foi terrível para as crianças. O resultado disso tudo é o agravamento que vemos agora: a saúde mental, o adoecimento físico e emocional das crianças é absurdo e é um assunto falado no mundo inteiro. Aumentou muito o número de crianças ansiosas, com depressão e também as tentativas de suicídio em adolescentes.  Por tudo isso, temos que ter um olhar muito atento às crianças agora porque o comportamento negativo delas nesse momento pode estar comunicando uma angústia vivida nesse período. Não dá para ignorar. 

  1. Adultização da infância: os impactos da superestimulação das crianças e a importância do brincar

Em pediatria, fala-se em três níveis de estresse: o estresse positivo, que é quando a criança adoece com gripe, tem que tomar vacina, tira nota ruim da prova, leva uma bronca dos pais… Esses casos levam o cérebro a reagir e ele ganha novas conexões (sinapses), estimulando o desenvolvimento. É um estresse leve e de curta duração, que faz as crianças superarem seus próprios limites.

O segundo tipo de estresse é o reparável, que é mais intenso, mais prolongado e se apresenta como o estresse de uma internação, por exemplo, onde o ambiente é pesado, tem injeções, medicamentos, mas a criança está amparada por médicos e enfermeiros e vai voltar para casa. 

Já o terceiro é o estresse tóxico: esse é contínuo, acontece em situações de miséria, fome, violência, por exemplo. E acontece também num cenário de excessos: de telas, tarefas, alimentação ultraprocessada (que está entre os fatores que mais causam adoecimento no mundo inteiro).  Quando há crianças que são submetidas ao estresse e queremos que ela repare esse estresse, tudo o que elas não precisam é de mais atividades para estimular o desenvolvimento. Vejo muitos pais colocando os filhos em milhares de atividades porque ouvem esses discursos ou porque querem reparar o tempo “perdido” em casa com a Pandemia.  O que esses pais estão fazendo é gerar mais estresse. A agenda da criança parece até uma  agenda de executiva de alto nível! Uma construção insana de currículo. 


E a infância deixa de existir. Aí você percebe que a criança começa a ter problemas de saúde mental, que está sobrecarregada e faz o quê? Coloca ela na aula de yoga, de meditação… Para resolver um problema que foi causado. É muito insano isso tudo. 


A resposta pra isso é uma única atividade: o brincar! A linguagem essencial da criança para entender o mundo e se manifestar no mundo é o brincar. Inclusive, existe uma convocação da Academia Americana de Pediatra convocando os pediatras a prescreverem o brincar. Nos últimos 50 anos, cada vez mais temos menos espaços ao ar livre para o brincar, menos famílias que valorizam o brincar, mais escolas conteudistas que enchem as crianças de lições e esquecem do brincar, massacrando crianças e reduzindo seu desempenho essencial. O brincar está caindo, perdendo espaço e território e tempos numa infância adultizada.


E tem uma frase que eu gosto muito: a medicina pode prolongar a vida em 10, 20 anos. Mas serão aos de velhice. A infância continua durando 12 anos, e estamos amputando essa infância. O brincar, e especialmente o livre brincar na natureza é o passaporte, a semente para fazer brotar uma infância e adolescência feliz, sem tanta depressão e problemas e uma vida adulta feliz. Uma criança com bem-estar será um adulto melhor e vai gerar mais habilidades também para o mercado de trabalho.A linguagem essencial da criança, a linguagem pela qual ela se compreende, compreende o mundo e se manifesta no mundo é a linguagem do brincar.

O BRINCAR É O MELHOR ANTÍDOTO PARA O ESTRESSE TÓXICO QUE NOSSAS CRIANÇAS ESTÃO VIVENDO NA ATUALIDADE. 

Dr. Daniel Becker
  1. Muita informação sobre cuidados com a infância nas redes sociais – como lidar?

Quando se fala em perfis para cuidados com crianças, falamos sobre dois tipos de conteúdos: o da educação parental e o da pediatria. Nos dois lados tem gente muito boa e menos boa. A quantidade de informação e variabilidade é tão grande que elas chegam a ser opostas: na questão do sono, por exemplo, temos milhares de pessoas ensinando como conquistar noites de sono para seu bebê. Tem quem diga que deve deixar chorando, o que é absurdo. E aqui no Brasil essa teoria perdeu muita força, ainda bem. Mas nos Estados Unidos os índices de aceitação e de pais que seguem isso são altíssimos. 

Dissociar o carinho do bebê do colo, do seio da mãe é simplesmente inaceitável. Por outro lado, temos o extremo radicalismo, que entroniza esse bebê de forma isolada, sem ver as necessidades da família. A falta de sono nas mães, por exemplo, é uma das principais causas de depressão materna e torna a pessoa incapaz de cuidar de outra pessoa porque ela não tem energia e condições de cuidar de si mesma. O sono é essencial para a vida e quando você não dorme você fica irritada com a criança e não vai conseguir atender bem às necessidades dela também. Então, não podemos ir para os extremos. Precisamos desconfiar de tudo o que é muito radical e extremista. Esse determinismo é muito perigoso e toca muito as mães porque elas querem respostas rápidas para suas angústias. E aí a mãe fica tentando se encaixar e encaixar o bebê neste manual, fazendo tudo o que ensinam e achando que os resultados serão perfeitos. Essa perfeição enganosa só existe pelas lentes editadas das redes sociais. 

A rotina da casa de uma criança que é filha de dois advogados é uma. A rotina na casa de um músico casado com uma bailarina é completamente diferente, e isso vai impactar a forma como os bebês de cada uma dessas famílias dormem. Não são as famílias ou as crianças que devem se encaixar nesses manuais. É o manual que deve servir para dar linhas de condutas e atitudes que vão ajudar na rotina das famílias e desenvolvimento das crianças. 

Já na área da pediatria, tenho visto muito radicalismo disseminado: outro dia coloquei o vídeo de um pai que estava beijando a criança enquanto tomava vacina. Depois, com os comentários do vídeo, eu reparei que ele beijava a boquinha da bebê. Era algo muito amoroso. Era inapropriado? Sim, era! Mas muitas pessoas o chamaram de abusador, acabaram com a cena, tiraram conclusões seríssimas. As pessoas não viam no vídeo o amor pleno de pai para filha, só viam uma porta aberta para o abuso. E o que poderia se tornar uma oportunidade para dialogarmos sobre aquilo e aprendermos juntos virou expressões de ódio. 

Por outro lado, tem perfis excelentes, com embasamento científico, mas que só falam de doenças. E aí passa aos pais a impressão que devem estar sempre alerta porque o próximo pode ser o filho dele. E isso leva a uma superproteção, medicalização, idas aos hospitais sem necessidade. Claro que os pais precisam estar informados, mas é preciso bom senso.

  1. Relação família e escola: autonomia e sentimento de competência no trabalho da autoestima

Autonomia, de fato, talvez seja uma das palavras mais importantes na criação das crianças, especialmente para os pequenos. Nós temos dois mandatos no nosso DNA: sobreviva e reproduza. Então são coisas que temos que fazer. E para sobreviver, precisamos de autonomia. Se um passarinho em três dias não aprender a voar, já era. A mãe o abandona. Com os animais é assim. Já o ser humano, quando nasce é totalmente dependente, mas a partir do momento que começa a desenvolver habilidades, como andar, caminhar, falar, devemos proporcionar autonomia. E a falta de autonomia nesses momentos de maior desenvolvimento da criança é absurda: nada está ao alcance dela! Ela não consegue fazer quase nada na casa porque os pais a privam de tudo por medo de se machucar. Acho importante ter em mente o seguinte: não faça nada para seu filho que ele acha que pode fazer. Se ele está tentando, deixe ele tentar. Marshall Rosenberg, o “pai” da comunicação não violenta, vai dizer que qualquer coisa que se interponha entre a criança e sua autonomia será motivo de combate. E é isso. A ligação disso com a superproteção grande. Precisamos deixar as crianças resolverem os problemas delas sozinhas, obviamente aqueles que não apresentam perigos. E não é que você vai causar frustração na criança, você simplesmente vai interferir menos. Para ela lidar com esses sentimentos, entender que o fracasso existe e faz parte da vida. E nas escolas os maiores períodos de aprendizado acontecem durante os intervalos, onde as crianças têm contato com outras e são livres para se expressarem como quiserem, criarem regras de brincadeiras, de jogos… Infelizmente, a famosa hora do recreio também tem sido reduzida em muitas escolas.

  1. A natureza é uma solução 

Diante dessa crise de infância, temos três grandes linhas de solução: 

  • Sociedade: é preciso investimento na infância. O melhor investimento que tem é pré-distribuição de renda. Quando você investe na infância, você tem tanta geração de capacidade, escolaridade, cidadania, empregabilidade, que você não vai precisar gastar lá frente com doenças, prisões e tantas outras medidas. E não sou eu que estou dizendo. Essa é uma conclusão do economista americano e vencedor do prêmio Nobel de Economia, James Heckman. Segundo ele, cada dólar investido na primeira infância retorna até 7 dólares para a sociedade. Não há nenhum outro investimento tão rentável quanto investir nas crianças. 
  • Vínculo com a família: nosso capital mais desejado e precioso é o tempo. E o que temos de mais sagrado são nossos filhos, tanto que muitos pais dizem que dariam a vida por seus filhos. É preciso dedicar 10% do seu tempo ao seu filho, num dia de 17 horas acordado, isso significa 1hora e 40 minutos. É como dar o dízimo ao seu filho. E isso não significa que você vai ficar colado nele brincando. É tomar café juntos, almoçar, jantar, levar para a escola. É estar junto, compartilhando o dia. Precisamos resgatar esse vínculo tão precarizado. 
  • Brincar na natureza: Se o brincar é a linguagem essencial da criança, a natureza é o território essencial da criança. E isso não significa que você precise ir para as Cataratas do Iguaçu ou para a Floresta Amazônica. É simples: é o brincar na praça, pegar pedrinhas, ver passarinhos e flores. Isso desperta a curiosidade, o desejo de descoberta e de aprender mais. A natureza acende a chama da criança. Além dos benefícios para a saúde: combate resfriados, aprende habilidades como a percepção e avaliação de risco (subo ou não nessa árvore?), a criança dorme melhor, fica longe das telas e do consumismo… Fica diante de um cenário que traz encantamento, senso de maravilhamento. E isso é fundamental para a criação de uma pessoa completa e integral.
  1. Criança e mudanças climáticas: o frio adoece?

Estamos vivendo um tempo inédito da história de adoecimento em série das crianças.  Em 40 anos como pediatra eu nunca tinha visto isso, eclosão de viroses, crianças em estado gravíssimo, crianças pegando várias viroses. Com o verão isso tende a melhorar. Mas é importante dizer que o frio e a chuva não causam doenças. Não tem tempo ruim, tem roupa inadequada. O que adoece são os vírus. Só pegamos vírus de outra pessoa. Raríssimas vezes o animal transmite ao homem. O que acontece é que o frio facilita a transmissão porque ficamos mais fechados e aglomerados, um ambiente propício à reprodução dos vírus. E o mecanismo de defesa do corpo fica reduzido. O mecanismo de frio facilita o adoecimento e por estarem aglomeradas em escolas e creches, as crianças ficam mais doentes. Mas se não tiver aglomeração e ela estiver com roupas adequadas, as chances de adoecer são mínimas. Então, não tenham medo do frio. Deixem suas crianças tomarem banho de chuva de vez em quando também. Isso é bom pra saúde, pra alma, para o “ser criança”. 

  1. Queda na vacinação: o que você precisa saber

Como boa parte das doenças já foram extintas graças à vacinação, caso da poliomielite e do sarampo, por exemplo, o que fica no imaginário é que são doenças “bobas”. Mas precisamos lembrar que muita gente morria por conta dessas doenças antigamente. E com as campanhas de fake news das vacinas da Covid, fortaleceu-se também o discurso antivacina de muitos grupos. Essa ideia da imunidade de rebanho, das terapias sem evidências para combater o Covid foram muito disseminadas. O Brasil teve a maior mortalidade por milhão de pessoas. E essa campanha foi vil, perversa e sórdida não só porque tirou a credibilidade da vacina da Covid, como também impactou na vacinação de forma geral, especialmente em crianças. Com esses dois fatores tivemos uma queda gravíssima, e estamos sujeitos a novos casos de doenças que haviam sido extintas. Um bom exemplo disso é a Meningite C, a mesma que estamos vacinados há 20 anos. E é triste ver crianças morrendo em 2022 por isso. Precisamos reverter esse cenário. Toda a sociedade precisa se unir. E sim: está acontecendo uma movimentação mundial e no Brasil também. A vacinação nas escolas e em pontos móveis tem ajudado bastante no acesso e as instituições, como Unicef, estão desenvolvendo iniciativas para melhorarmos esse cenário. É importante que cada um faça a sua parte. 



Quantos ensinamentos, não é mesmo? Eu não poderia guardar tanta informação interessante apenas para mim. Agora, Stellar quer saber: esses aprendizados foram úteis para você? Compartilhe o que você achou aqui neste post da nossa rede socialE, confira mais conteúdos sobre Saúde e Bem-Estar em nosso site.

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