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O divórcio e o re-encontro com a mulher que você é

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O divórcio e o re-encontro com a mulher que você é

É muito comum o sentimento de incompletude e perda da identidade após o fim de um casamento. Nossa estrela-convidada Lúcia Tina, advogada e autora do romance-ficção “Estado Civil: Inteira”, trata das complexidades femininas - e sociais - após o término do relacionamento e fala sobre a importância da mulher entender que ela é inteira, mesmo estando sozinha. Vem se inspirar nessa conversa!

21/03/2023


Você já parou para pensar que temos quatro estados civis e que em todos eles a definição é sempre relacionada ao outro? Solteira é aquela pessoa que não tem ninguém – no dicionário, é a que ainda não se casou, porque o modelo é o casamento; casada é a que tem alguém; divorciada a que deixou de ter alguém por algum motivo; e viúva a que perdeu alguém para a morte. É como se para ser alguém precisássemos sempre do outro.

Contrariando essa visão, o romance-ficção “Estado Civil: inteira”, grita ao mundo que não é preciso ter alguém para ser alguém. Fica impossível não se reconhecer na obra, que fala muito sobre a discriminação social da mulher divorcidada, mas que pode ser lido por mulheres de qualquer estado civil e causar momentos de pura identificação. Escrito pela advogada, poetisa, compositora e escritora Lúcia Tina, a narrativa fala da reconstrução de Rose, uma mulher que, após o divórcio, se dá conta que se perdeu de si mesma, esquecendo quem ela era. Se anulou para o casamento, vivia em função do marido e dos filhos e mal sabia escolher um filme sozinha. Já não se lembrava mais do que gostava e o que fazia seus olhos brilharem. 

A narrativa envolvente mistura histórias de mulheres que Lúcia Tina acompanhou nos seus 25 anos como advogada de família. A história pessoal de Lúcia, que se divorciou, aos 42 anos, e iniciou uma busca por se reconhecer na própria pele, também foi importante no processo de escrita de seu romance. No livro, a personagem principal, Rose, parte para uma viagem sozinha para Barbados, a ilha Caribenha paradisíaca e, mais que um deslocamento geográfico, essa jornada em busca de si mesma é uma experiência transformadora, em que a protagonista aprende com as pessoas e situações que encontra.

Rose, Sharon, Kathleen, Samira, Anne e Trudi, entre outras, são personagens de diferentes perfis que exploram questões de interesse das mulheres de hoje, como pressão por um padrão de beleza, liberdade sexual, gravidez precoce, relógio biológico, companheirismo, traição, realização profissional, pertencimento. Encontrar essas mulheres faz parte de uma reconstrução da personagem principal. 

Desculpe por estar sozinha

Recém divorciada, Rose se depara com a seguinte pergunta ao fazer sua reserva no hotel e na companhia aérea: “acomodação para quantas pessoas?”, “passagem para quantas pessoas”. Nesses momentos, ela diz “para mim, só para mim”, num tom de justificativa, quase pedindo desculpas por não estar acompanhada. “Comigo isso também aconteceu e com muitas mulheres que se divorciam acontece. Fiquei inventando justificativas para ir a uma viagem sozinha. Achei a minha: eu iria escrever um livro”, diz Lúcia.

Mas, afinal de contas, porque a mulher se sente tão mal por não ter alguém ao lado? O livro já começa com uma crítica: as próprias mulheres casadas, mesmo que o casamento seja péssimo, tendem a olhar para uma mulher solteira ou divorciada com ar superior ou com pena. “Isso é muito estrutural na nossa sociedade e em outras também porque sempre fomos validadas a partir do outro”, pontua Lúcia. 

Ao chegar no hotel sozinha, Rose é olhada de cima embaixo como se questionassem: “será que é lésbica?, “será que foi abandonada?” No entanto, por vezes, quando casada, Rose já esteve no lado oposto, julgando também mulheres sozinhas, e agora ela precisa encarar o fantasma que é estar sozinha. Ao longo da narrativa, ela enfrenta momentos de descobertas e como diz uma letra de samba composta por Lúcia Tina, vai “catando no caminho os cacos do que seria ela”.

Eu não sei você, mas fiquei com muita vontade de “devorar” o livro após conversar com a autora, essa advogada com alma de poeta. A seguir Lúcia Tina traz algumas sugestões que podem ajudar quem passou por um divórcio a se “encontrar” novamente: 


Tome posse do que é seu por direito

Com bagagem de quase três décadas ouvindo casais que se divorciam, Lúcia faz questão de ser reconhecida como uma profissional que advoga em prol da pessoa mais vulnerável na relação. “Trabalhei durante muitos anos com litígio e hoje acredito que o que efetivamente resolve um conflito familiar são os acordos. Mas esses acordos precisam ser conscientes. As mulheres geralmente são mais frágeis na relação e isso se transporta para o momento do divóricio, com grandes chances de resultar em acordos desiguais, justamente pelo modelo da relação de submissão que já existia. Por isso, faço questão de orientar mulheres sobre seus direitos”, diz. 


Esse ponto é importante porque pode ficar a sensação, até mesmo da própria mulher, que após a separação ela “se aproveitou” da situação ao aceitar o que é nada mais, nada menos que a divisão justa e equilibrada do patrimônio. E isso também contribui para que essa mulher se sinta ainda mais perdida em relação a quem ela é o que deseja. Por isso, se estiver passando por uma decisão importante dessas, tome posse do que é seu por direito com a consciência tranquila. 

Tenha um “momento gengibre”

Como assim? A advogada faz uma analogia com a culinária oriental: entre um sushi e outro, neutraliza-se o sabor com o gengibre, para aproveitar ao máximo o sabor do próximo sushi. Quando vem o divórcio, é muito comum sentirmos que falta a nossa metade. Mas é importante encarar esse momento não para repor sua “metade da laranja”, porque você é inteira. É hora de se regenerar para que a sua própria laranja fique inteira. “A  mulher divorciada precisa aproveitar esse momento da neutralidade, de olhar para ela e entender quem ela é nesse lugar neutro, sem ter outro relacionamento já de cara. Isso porque o risco de repetir o modelo anterior é enorme, além das chances de achar que o outro é salvador da pátria. E atenção: nem sempre o fato de não conseguir ficar sozinha é sinal de carência. Muitas vezes, é um reflexo cultural e social que busca validação no outro o tempo todo”, reflete.


Divida com cautela sua vulnerabilidade e, se possível, faça terapia

É muito comum e esperado buscarmos apoio e abrirmos o coração para as pessoas mais próximas. No entanto, nem sempre elas estão preparadas para ouvir o que temos a dizer. Seja o luto da história que não teve o fim esperado ou até mesmo a confidência da liberdade que é aproveitar a vida sem outra pessoa. Todos nós usamos máscaras sociais e é importante que nesse momento tão particular a pessoa que será sua ouvinte esteja sem máscaras e com o coração aberto para te ouvir e acolher. Na dúvida, leve para a terapia as dores ou até mesmo as delícias da descoberta de novas possibilidades. “As pessoas com quem você se abre e continuam suas amigas, mesmo tendo te julgado em algum momento, mas que ficam e reconhecem o quanto foi importante sua fase, são aquelas importantes de manter na sua vida. Já outras, é melhor deixar mesmo que se afastem, como uma seleção natural da vida”, aconselha. 


Não tenha medo dos seus questionamentos internos

Pode até ser que você esteja se sentindo como uma deficiente social, oscilando entre pensamentos. Mas saiba que é comum se sentir assim. “A minha personagem se questiona o tempo todo pelas escolhas que faz e o que sente. Não é que ela está super realizada e feliz de estar com toda aquela liberdade, pois ela se questiona se, de fato, está feliz. Tem uma hora que ela abre a canga na praia e pensa: poderia ter alguém mais nessa canga… mas aí ela pensa de novo: se tiver que vir alguém, que traga sua própria canga, não precisa sentar na minha”, conta. Ao longo do livro, ela vai se apropriando disso. E com as mulheres que se divorciam pode ser assim também. O livro não é um grito de liberdade da mulher solteira que pode fazer o que quer. O livro é um questionamento do seu espaço sozinha, seja divorciada, solteira, na vida da sociedade e o respeito a essa escolha, sabendo que você já é inteira”, conta a autora. 

Não queria ser a mesma de antes do casamento

O divórcio é sim um convite para o resgate de si mesma, mas não daquela jovem antes do casamento, porque, afinal, hoje você traz uma bagagem de vida. Você pode e deve buscar a sua natureza anterior, mas sabendo que não dá para voltar no tempo e ser novamente aquela jovenzinha. É fundamental buscar a sua essência, entender o que mudou e saber o que você precisa nesse momento da sua vida como divorciada. “Após me separar, passei a explorar meus potenciais, sonhos e desejos, que por um motivo ou outro eu havia deixado para trás. Me tornei compositora, escrevi poesias, um livro… Busque o que te faz bem. E acredite: você só vai encontrar isso ao se permitir se conhecer novamente nessa nova fase”, conclui.


Nós, da Stellar, esperamos, de coração, que você tenha se sentido acolhida nesse texto e que essas dicas a ajudem a encontrar caminhos na jornada em busca de si mesma. Não duvide nunca de seus potenciais, afinal, com ou sem alguém, você já é inteira! Caso você esteja transitando por esse processo do divórcio e precise de uma advogada para auxiliá-la, Lúcia Tina é advogada de família e pode ajudá-la. Para mais informações, clique aqui

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